Como Me Tornei um GNU

De janeleiro à entusiasta de Software livre

Relato por Carlos Silva

O janelamento

Eu também já fui um janeleiro, usuário do sistema proprietário, Janelas. Era um janeleiro não porque gostava do sistema janelas, mas, por ser o único sistema operacional, a mim, apresentado em todos ambientes de tecnologia que frequentava.

Quando estive na fase da adolescente (entre 16 e 17 anos), os primeiros cursos básicos de informática que fiz eram ministrados em computadores com sistema operacional “Janelas 95”. Era o que tinha de melhor na época. Meu primeiro contato com um computador deu-se, numa sala de aula, de uns dos imoveis do instituto Malba Lucena.

Microsft Windows 95“Microsoft Windows 95” por Josef Rousek, licenciado sob: CC-BY 2.0

Malba Lucena era uma instituição privada, uma das poucas na década de 90 na região metropolitana de Recife, a oferecer cursos de informática a baixo custo. Para se ter uma ideia da popularidade, as salas de aulas eram lotadas em todos os horários de treinamentos.

Com o conhecimento básico em mãos, pude então, elevar meu conhecimento no sistema proprietário. Fiz um curso de automação comercial na, hoje extinta, cruzada de ação social. Os computadores do laboratório possuíam hardware modesto: CPU Intel Pentium III, 512MB de memória RAM e 40GB de armazenamento (HD IDE). Todas as máquinas rodavam o sistema operacional Janelas 98.

Na juventude (entre 19 e 20 anos) fiz meu primeiro curso de manutenção de computadores pelo instituto universal brasileiro... sim! pelos correios! Não tinha dinheiro naquela época para fazer um curso profissional no SENAC. O jeito foi apelar para um curso via correios.

O curso era bastante simples, no pacote haviam duas apostilas, algumas ferramentas como multiteste e um DVD com videoaulas sobre montagem de computadores desktop. O sistema operacional apresentado, nas videoaulas, para instalação nos computadores era; Janelas 2000.

Fiz outros cursos de manutenção de microcomputadores, e pasmem, todos tinham como base de estudo, o sistema operacional proprietário, Janelas.

Conhecendo o sistema operacional GNU/Linux

Foi durante um curso básico de administração de rede de computadores, ministrado pelo instituto de cidadania e desenvolvimento social em parceria com a secretaria de juventude e emprego do governo do estado de pernambuco que ouvi pela primeira vez, a palavra; LINUX!

GNU/Linux “GNU & Linux” por Ti.mo, licenciado sob: CC BY-NC-SA 2.0

Professor Sérgio, com seu laptop HP, apresentava à sala, os slides feitos com LibreOffice Impress, referentes ao curso de redes de computadores. Fiquei encantado com o sistema operacional inserido no laptop do professor Sérgio.

Enquanto fascinado pela beleza do ambiente de trabalho do sistema operacional no laptop, uma aluna também admirada, perguntou ao professor: Que Windows é este? O professor Sérgio de imediato respondeu: Isto é Linux!

O professor recolheu os slides e reservou um tempo de sua aula para mostrar a toda sala, as maravilhas do sistema operacional Ubuntu. Foi incrível!

Passei parte da infância, adolescência até o início da juventude sendo adestrado num sistema operacional proprietário e não sabia que existia outro sistema além do Janelas. Aquelas imagens do ambiente de trabalho do Ubuntu ficaram em minha mente, voltei à casa, abobalhado.

No dia seguinte, perguntei ao professor em particular, como poderia obter o Ubuntu e quanto custava. O professor com sorriso no rosto, havia dito que poderia baixar uma cópia do Ubuntu livremente na página do desenvolvedor (Canonical) e o custo que teria era; a compra de uma mídia DVD e de uma doação, de qualquer valor (opcional), ao desenvolvedor.

Fiquei feliz, comprei uma mídia DVD numa papelaria, baixei a imagem do Ubuntu por meio de torrent, fiz a queima da imagem na mídia e então comecei à avaliação do sistema operacional GNU/Linux. Depois de quase uma semana de avaliação no modo live, criei coragem e removi o sistema proprietário Janelas do meu computador.

Neste momento estava fechando uma janela, mas por outro lado, abrindo uma porta...

A janela para o mundo pode ser coberta por um jornal.

Unkempt thoughts‎ – Página 27, Stanisław Jerzy Lec – St. Martin's Press, 1962 – 160 páginas.

Contato com o Movimento Software Livre

Passado um ano com Ubuntu 12.04 instalado em meu computador, já não era mais um janeleiro, agora seria um “linuxero”. Contava pra todo mundo, para os colegas janeleiros, para a família e também aos vizinhos sobre GNU/Linux. A minha surpresa era a reação de recusa das pessoas. A reação de desprezo veio com força. tive a sensação de que as pessoas; colegas, família e vizinhos achavam estarem certas por usarem o sistema janelas e eu errado, por apresentar algo diferente.

Mesmo com o desacolhimento, não desanimei... continuei firme com o GNU/Linux.

Senti a necessidade de conhecer outras pessoas que utilizassem GNU/Linux também. E uma oportunidade surgiu quando passava por acaso pelo campus da universidade federal de pernambuco (UFPE) num dia de domingo. Vi uma movimentação no prédio da concha acústica, do lado de fora, havia uma faixa com os dizeres: OXENTE, Espaço Hacker... apropinquei-me.

Flisol Logo “FLISoL logo 2015” por Jared López L. (2005), Patricio Maciel (2008), Gabriel Campo (2009) e Xavier Araque (2014), licenciado sob: CC BY-SA 3.0

Em frente a entrada da concha acústica haviam algumas pessoas, muitos estudantes. Perguntei a uma jovem que vestia uma camisa do evento:

No interior da concha acústica havia uma quantidade razoável de pessoas, mas não o suficiente para lotar. Também havia uma palestra em andamento, mas não entendia do que se tratava. procurei um local para assentar.

Já passava das quatro horas da tarde, me preparava para ir embora. Mas antes, me aproximei de um conglomerado de pessoas e computadores... era o “installfest”. Fiquei observando alguns estudantes e seus laptops passando por um processo de instalação. Perguntei a um rapaz sentado com camisa do evento:

“Debian 6 CD-DVD Label 64 bit 300dpi” por MiroZarta, licenciado sob: CC BY-SA 3.0

O rapaz levantou-se e dirigiu-se até uma moça bem simpática, ela foi até uma caixa no canto da sala e pegou um envelope, em seguida entregou a mim. Não havia nenhum tipo de inscrição na mídia. Agradeci aos dois jovens e parti.

Minutos depois de ter chegado em casa, liguei o computador e inseri a mídia no drive, deu boot. Esperei por um modo live como no Ubuntu, mas não aconteceu, foi direto para tela de instalação. Era Debian 8 Jessie.

Entusiasta do Software livre

Instalei o sistema operacional Debian sem problemas. Segui alguns um tutoriais para isso.

Fiquei pasmo com a leveza do ambiente que escolhi, XFCE, e por mais pessimista que fosse, TUDO FUNCIONAVA na Debian! Tudo! A estabilidade do sistema era colossal. Percebi de imediato que havia feito uma ótima escolha.

Participei de outros eventos do Flisol, nos anos: 2017, 2018 e 2019. Assistia todas as palestras, aprendi muito. Tomei conhecimento do movimento software livre, um movimento social e político, conheci a história do sistema operacional GNU, sobre o projeto GNU, da Free Software Foundation e seu fundador: Richard Stallman.

Levei comigo o conhecimento adquirido para a faculdade que frequentava: Instituto pernambucano de Ensino Superior (IPESU). Lá, não fiz muitos amigos, apenas dois camaradas de uma turma de mais de 20 pessoas se juntaram a mim. Felipe Silva e Davi Almeida.

Defendi o movimento software livre até o último período do curso de Rede de Computadores. Não foi fácil. Apresentava soluções livres as ferramentas proprietárias que os professores utilizavam. Para terem uma ideia da mentalidade janeleira, de oito professores do curso, sete usavam Janelas 10 e apenas um usava um Mac OS X.

Licença Publica Geral de GNU “GNU GPLv3 Logo” por Nooku, licenciado sob: CC BY-NC-SA 2.0

Fiz um pequena palestra sobre o uso das ferramentas de rede: Wireshark (GPLv2) e Nmap (GPLv2). Fiz e apresentei um pequeno projeto de rede doméstica usando GNS3 (GPLv3). Demonstrei num laboratório da faculdade a instalação do Debian (DFSG) numa máquina virtual: Virt-Manager (GPLv2). Demonstrei aos colegas de sala, numa apresentação, o uso do mensageiro GNU Jami (GPLv3) para conversas (chat), grupos, compartilhamento e videoconferências.

Meu trabalho de conclusão de curso (TCC/PIM) foi sobre o uso da ferramenta de monitoramento Zabbix (GPLv2). Utilizei as documentações da Debian e do próprio Zabbix para elaborar o conteúdo. O trabalho (TCC/PIM) foi redigido por completo no LibreOffice Writer (MPLv2 e LGPLv3).

Mesmo com todo esforço, não foi possível abandonar por completo as ferramentas proprietárias, as exigências dos professores e da coordenação da faculdade não eram favoráveis.

Continuo na luta, meio que remando contra a maré. Quando tenho oportunidade, apresento sem demoras soluções livres à ferramentas proprietárias. Seja lá onde for.

Viva ao software livre!

Licença de Cultura livre

Licença Creative Commons
Esta obra está sob a Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.