erato

um poema por dia

Manuel Inácio da Silva Alvarenga in Glaura – Poemas Eróticos

Cai a cinta a Vênus bela, Sem cautela recostada; E turbada entre os pesares Pede aos mares que lhe deem.

O tesouro se procura. Os desejos se interessam, Os cuidados já se apressam, E a ternura se vai também.

Empenhou-se, ó Glaura, o zelo; Mas: em vão, que perda triste! Só eu vi, sei onde existe, E dizê-lo não convém.

Cai a cinta a Vênus bela, Sem cautela recostada; E turbada entre os pesares Pede aos mares que lhe deem.

Roubador do puro ornato Foi Antero e foi Cupido; E o levaram escondido Com recato, sei a quem.

Receosos pelo insulto. Que traidores cometeram. No teu seio se acolheram Onde oculto asilo têm

Cai a cinta a Vênus bela, Sem cautela recostada; E turbada entre os pesares Pede aos mares que lhe deem.

Dos meus olhos não se escodem Os meninos, a quem amo: Se os procuro, espreito e chamo. Correspondem, mas não vêm.

Com acenos expressivos De alegria suspeitosa Mostram faixa preciosa, Que atrativos mil contém.

Cai a cinta a Vênus bela, Sem cautela recostada; E turbada entre os pesares Pede aos mares que lhe deem.

Se piedade aflito rogo, E que cessem teus rigores (Ah cruéis lindos Amores!) Fogem logo e com desdém.

Abrandá-los não consigo E já deles tenho medo; Guarda, Ninfa, este segredo. Que não digo a mais ninguém.

Cai a cinta a Vênus bela, Sem cautela recostada; E turbada entre os pesares Pede aos mares que lhe deem.

Comentário

Acho que o problema não é o Arcadismo, mas sim os representantes (Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga), porque eu gostei muito deste poema. As referências são maravilhosas, o esquema de rondó ficou muito interessante e a linguagem não é cansativa como em Costa ou Gonzaga. Gosto muito do refrão dele e do encerramento. Vou até procurar mais poemas deste poeta.

Tomás Antônio Gonzaga in Marília de Dirceu

Minha bela Marília, tudo passa; A sorte deste mundo é mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos Deuses Sujeitos ao poder ímpio Fado: Apolo já fugiu do Céu brilhante, Já foi Pastor de gado.

A devorante mão da negra Morte Acaba de roubar o bem, que temos; Até na triste campa não podemos Zombar do braço da inconstante sorte. Qual fica no sepulcro, Que seus avós ergueram, descansado; Qual no campo, e lhe arranca os brancos ossos Ferro do torto arado.

Ah! enquanto os Destinos impiedosos Não voltam contra nós a face irada, Façamos, sim façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos. Um coração, que frouxo A grata posse de seu bem difere, A si, Marília, a si próprio rouba, E a si próprio fere.

Ornemos nossas testas com as flores. E façamos de feno um brando leito, Prendamo-nos, Marília, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possam deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Também, Marília, morre.

Com os anos, Marília, o gosto falta, E se entorpece o corpo já cansado; triste o velho cordeiro está deitado, e o leve filho sempre alegre salta. A mesma formosura É dote, que só goza a mocidade: Rugam-se as faces, o cabelo alveja, Mal chega a longa idade.

Que havemos de esperar, Marília bela? Que vão passando os florescentes dias? As glórias, que vêm tarde, já vêm frias; E pode enfim mudar-se a nossa estrela. Ah! Não, minha Marília, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças E ao semblante a graça.

Comentário

Esse poema é mais tradicional do Arcadismo, um movimento de que não sou muito fã por me parecer reciclagem de reciclagem, resultando em uma arte que fica repetitiva e um pouco sem gosto. Na verdade, talvez nem dos poemas romanos que envolvem carpe diem eu goste, mas isso não é culpa dos poetas e sim do meu tirar os poemas do contexto histórico e atribuir o meu contexto, que é um em que o conceito de carpe diem foi pervertido e transformado numa frase feita.

Além de tudo, eu tenho certa preguiça de poemas sobre amor, mas o desafio é justamente me habituar a esse tipo de poesia e talvez até criar gosto por ele. Sei que os modernos e pós-modernos me agradam mais nesse aspecto, mas temos um tempo até chegar neles.

Dito isso, a estrutura do poema me agrada bastante e o esquema de rimas (e as rimas em si) são interessantes.

Tomás Antônio Gonzaga (excerto)

Chegam-se enfim as horas, em que o sono Estende, na cidade, as negras asas, Em cima dos viventes espremendo Viçosas dormideiras. Tudo fica Em profundo silêncio, só a casa, A casa aonde habita o grande chefe. Parece, Doroteu, que vem abaixo. Fingindo a moça que levanta a saia E voando na ponta dos dedinhos, Prega no machacaz, de quem mais gosta, A lasciva embigada, abrindo os braços; Então o machacaz, mexendo a bunda, Pondo uma mão na testa, outra na ilharga, Ou dando alguns estalos com os dedos, Seguindo das violas o compasso, Lhe diz–”eu pago, eu pago”–e, de repente, Sobre a torpe michela atira o salto. Ó dança venturosa! Tu entravas Nas humildes choupanas, onde as negras, Aonde as vis mulatas, apertando Por baixo do bandulho a larga cinta, Te honravam, c'os marotos e brejeiros, Batendo sobre o chão o pé descalço. Agora já consegues ter entrada Nas casas mais honestas e palácios! Ah! tu, famoso chefe, dás exemplo. Tu já, tu já batucas, escondido Debaixo dos teus tetos, com a moça Que furtou, ao senhor o teu Ribério! Tu também já batucas sobre a sala Da formosa comadre, quando o pede A borracha função do santo entrudo. Ah! que isto, sendo pouco, é muito! Que os exemplos dos chefes logo correm E corre muito mais, quando fomentam Aqueles vícios, a que os gênios puxam.

Comentário

Eu gosto que este poema não tenha rimas e que tenha o formato de carta; é algo que me agrada na obra a que ele pertence como um todo. A descrição da dança é muito interessante também, e o excerto funcionou bem como um poema sozinho, ainda que nisso tenha se perdido a repetição do “Chegam-se enfim as horas...” que ele faz em outro trecho. A sutileza também é agradável; é conseguir respirar depois dos quatro poemas de Gregório de Matos que apareceram antes.

Cartas chilenas é uma daquelas obras que eu tenho vontade de ler inteiras, aliás, mas nunca vejo um momento propício. Quem sabe um dia...