Cartas Chilenas

Tomás Antônio Gonzaga (excerto)

Chegam-se enfim as horas, em que o sono Estende, na cidade, as negras asas, Em cima dos viventes espremendo Viçosas dormideiras. Tudo fica Em profundo silêncio, só a casa, A casa aonde habita o grande chefe. Parece, Doroteu, que vem abaixo. Fingindo a moça que levanta a saia E voando na ponta dos dedinhos, Prega no machacaz, de quem mais gosta, A lasciva embigada, abrindo os braços; Então o machacaz, mexendo a bunda, Pondo uma mão na testa, outra na ilharga, Ou dando alguns estalos com os dedos, Seguindo das violas o compasso, Lhe diz–”eu pago, eu pago”–e, de repente, Sobre a torpe michela atira o salto. Ó dança venturosa! Tu entravas Nas humildes choupanas, onde as negras, Aonde as vis mulatas, apertando Por baixo do bandulho a larga cinta, Te honravam, c'os marotos e brejeiros, Batendo sobre o chão o pé descalço. Agora já consegues ter entrada Nas casas mais honestas e palácios! Ah! tu, famoso chefe, dás exemplo. Tu já, tu já batucas, escondido Debaixo dos teus tetos, com a moça Que furtou, ao senhor o teu Ribério! Tu também já batucas sobre a sala Da formosa comadre, quando o pede A borracha função do santo entrudo. Ah! que isto, sendo pouco, é muito! Que os exemplos dos chefes logo correm E corre muito mais, quando fomentam Aqueles vícios, a que os gênios puxam.

Comentário

Eu gosto que este poema não tenha rimas e que tenha o formato de carta; é algo que me agrada na obra a que ele pertence como um todo. A descrição da dança é muito interessante também, e o excerto funcionou bem como um poema sozinho, ainda que nisso tenha se perdido a repetição do “Chegam-se enfim as horas...” que ele faz em outro trecho. A sutileza também é agradável; é conseguir respirar depois dos quatro poemas de Gregório de Matos que apareceram antes.

Cartas chilenas é uma daquelas obras que eu tenho vontade de ler inteiras, aliás, mas nunca vejo um momento propício. Quem sabe um dia...